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Quando Zhou Zishu colocou Zhang Chengling para dormir pressionando seu ponto de acupuntura, ele temia que o menino não estivesse lidando bem com a situação e achou melhor tranquilizá-lo. Ele havia usado pouca força, então o menino acordou não muito depois da chegada do excêntrico Wen Kexing.
Depois de reabrir os olhos, Zhang Chengling olhou para o teto com uma expressão vazia por um longo tempo, como se sua alma tivesse deixado seu corpo.
Um dia atrás, ele ainda era o jovem mestre da casa Zhang, que não recebia nada além de elogios e amor. Mesmo quando seu tutor o chamava de medíocre e lhe dizia que ele era como uma parede de terra que jamais poderia ser polida com o brilho do gesso; ou quando seu mestre de artes marciais acenava com a cabeça em falsa aprovação enquanto pensava que ele não passava de lama ruim, inútil para rebocar paredes - mesmo apesar disso, Zhang Chengling ainda levava uma vida feliz.
Uma multidão de servos tomava conta dele; bastava esticar os braços para ser vestido, abrir a boca para ser alimentado. Ele poderia se sair mal nos estudos, mas nunca lhe faltaram belas donzelas para repor o óleo das suas lamparinas[1] enquanto ele lia do anoitecer ao amanhecer, nem criados para segui-lo e bajulá-lo do amanhecer ao anoitecer.
Zhang Chengling conhecia seus próprios defeitos, mas isso não o impedia de se deleitar com os falsos elogios às vezes. Assim, foi em um casulo de mel que ele cresceu até os quatorze anos.
E então ele perdeu tudo em uma única noite.
Sua casa, seus pais, seus parentes e amigos - todos eles se foram. Seu mundo inteiro virou de cabeça para baixo, deixando-o amedrontado e totalmente perdido.
Zhou Zishu era do tipo que sabia se manter numa conversa fiada, mas não fazia ideia de como consolar alguém; então ele apenas se sentou ao lado do garoto sem dizer uma palavra. Lágrimas silenciosas começaram a jorrar dos olhos do menino, formando duas trilhas úmidas em seu rosto.
Ele ouviu Wen Kexing perguntando a Gu Xiang: “Aquela coisinha ali, quem é ele?”
“Ele diz que é filho de Zhang Yusen”, a garota respondeu.
Wen Kexing acenou com a cabeça com uma expressão sombria, como se o nome “Zhang Yusen” não fosse mais do que um grão de poeira para ele. Demorou um pouco antes que ele voltasse a falar.
“Eles não dizem que a família Zhang é tão pobre que se banha em dinheiro? Como um filho de Zhang Yusen acabou assim? Ele fugiu sem trazer ouro suficiente para si, ou se perdeu e não consegue encontrar o caminho para casa?”
Gu Xiang baixou a voz: “Pelo que ele nos contou, alguém conspirou contra os Zhangs e todo o clã foi exterminado ontem. O massacre deve ser o assunto do momento na cidade agora, mas talvez o mestre estivesse ocupado demais brincando com os seus diabinhos para saber disso.”
Wen Kexing ponderou por um tempo antes de concordar. “Isso explicaria todos os cadáveres espalhados.”
Em seguida, ele voltou a examinar Zhou Zishu e perguntou: “E este aqui?”
“O mendigo? Ele se chama Zhou Xu. Ele se vendeu a um homem morto por duas pratas[2], então agora terá que escoltar o menino até Tai Hu.”
Os olhos de Wen Kexing se arregalaram ligeiramente. Ele considerou a informação por alguns minutos, com uma expressão séria no rosto, antes de se dirigir a Gu Xiang novamente.
“Agora estou ainda mais certo de que ele é uma beldade. Sim, não há dúvidas sobre isso. Nesse mundo, apenas pessoas bonitas podem ser tão estúpidas.”
Gu Xiang recorreu à ignorância, muito acostumada com as travessuras de seu mestre; Zhou Zishu fez o mesmo, já que ainda não havia avaliado totalmente as habilidades desse homem.
Com a cabeça baixa, ele olhou para Zhang Chengling, que ainda chorava em silêncio. Isso o irritou. Como aquilo parecia que não ia acabar, ele cutucou o menino com a ponta do sapato e tossiu de leve.
“Jovem Mestre Zhang, recomponha-se se já descansou o suficiente. Não deveríamos ficar neste lugar por muito tempo, deve haver mais pessoas atrás de você para terminar o trabalho. Já que concordei em acompanhá-lo, então vou garantir que chegue em Tai Hu são e salvo.”
Zhang Chengling lentamente olhou ao redor antes de seu olhar congelar novamente. Ele cobriu o rosto com as duas mãos, enrolou o corpo como um camarão frito e recomeçou a chorar.
A cabeça de Zhou Zishu instantaneamente começou a doer.
Ele disse a si mesmo que uma repreensão era necessária, mas não teve coragem de fazê-lo. Confortar crianças também não era seu forte, então o silêncio era a melhor opção. Então, depois de algum tempo, ele subitamente se levantou e começou a caminhar em direção à porta.
Sua intenção era verificar a estátua que ele havia mandado pelos ares anteriormente, pois ele considerava que profanar a efígie do Buda como o ato inaugural de sua primeira tentativa de acumular méritos era um pouco inapropriado.
Ele estava deliberando sobre como devolver a estátua ao seu lugar original quando Zhang Chengling - que interpretara mal o movimento do outro e havia pensado que Zhou Zishu estava prestes a abandoná-lo - levantou-se de um salto e atirou-se para a frente, agarrando o tornozelo do mais velho.
“Tio Zhou, tio Zhou, por favor, não… por favor, não me deixe, eu… eu…”
Ele parecia extremamente lamentável soluçando daquele jeito. Embora Zhou Zishu fosse um estranho para ele, o menino não tinha mais ninguém em quem pudesse confiar; naquele momento, Zhou Zishu era para ele como uma tábua de salvação, um emissário vivo dos deuses.
Zhou Zishu olhou para o menino aos seus pés, rosto e voz inexpressivos. “Seu pai nunca lhe disse que há ouro sob os joelhos de um homem?[3]”
Depois de um breve momento de estupefação, graças a essas palavras, Zhang Chengling finalmente alcançou algum tipo de compreensão. Ele usou as mangas das roupas para enxugar as lágrimas e o ranho de forma enérgica.
“Prostrar-se perante o céu, a terra, o rei, a família e o professor[4] é o certo a se fazer de acordo com as leis celestiais e os princípios terrenos”, retrucou ele. “Tio Zhou, você salvou minha vida e é para sempre meu benfeitor. Por favor, deixe-me ser seu discípulo!”
Wen Kexing e Gu Xiang observavam a cena com grande interesse.
“Na noite passada ele ainda era uma criança tola”, a garota comentou. “Ele ficou esperto muito rápido, hein?”
“...Levante-se primeiro”, foi tudo o que Zhou Zishu conseguiu dizer ao menino.
Zhang Chengling recusou obstinadamente. “Não vou me levantar até o shifu[5] aceitar! Como posso viver e me chamar de homem se não consigo vingar o extermínio da minha família? Shifu…”