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Os dias na mansão Lee continuavam, repletos de momentos simples, mas significativos. Minha rotina era dividida entre os estudos, o treinamento e as interações cada vez mais afetuosas com Haeun e Chan. No entanto, algo começou a mudar dentro de mim. Não era algo físico, mas uma sensação incômoda, como se uma tempestade se aproximasse e eu estivesse incapaz de detê-la.

E então, vinham as memórias do jogo.

Não de forma repentina, como um relâmpago, mas em pedaços, como fragmentos de um espelho quebrado tentando se remontar. Era sempre no silêncio da noite, quando a mansão estava mergulhada na escuridão e eu me permitia pensar.

A princípio, eram flashes confusos: a imagem de uma espada manchada de sangue, o som de gritos desesperados, um olhar de puro ódio... e olhos vermelhos, brilhando com uma intensidade quase sobrenatural. Era como se fosse uma memória da eunji do jogo em um dos seus fatídicos finais.

Seungcheol.

O nome ecoou na minha mente como um trovão. Eu não sabia como, mas me lembrei dele. Não era um personagem qualquer de Saint Tears; ele era o vilão principal. O homem cuja vida estava envolta em tragédias e ressentimento, cuja história era tão complexa que você quase podia entender suas motivações.

E eu sabia, com uma certeza aterrorizante, ele me mataria.

Era madrugada quando acordei suando frio. As lembranças agora eram mais claras, como se uma cortina tivesse sido arrancada. Não consegui voltar a dormir, então me sentei à escrivaninha do meu quarto, acendendo uma vela.

"Seungcheol... Minha sobrevivência depende dele", pensei, com os dedos trêmulos tocando minha têmpora.

No jogo, ele era o herdeiro de uma família amaldiçoada, marcado por olhos que brilhavam em vermelho sempre que sua raiva ou tristeza ultrapassavam o limite. A maldição não era apenas física; ela parecia corroer a mente e o coração de quem a carregava, tornando-o uma figura isolada e incompreendida.

Sua família morreu quando ainda era um adolescente por conta de uma doença, mas mesmo assim todos o culpavam como se ele tivesse os matado em uma crise de fúria e perda de identidade para a maldição. Ele nunca negou tal fato, mas isso o tornava um personagem sombrio no jogo.

Lembrando das rotas de romance…  Ele era uma das opções para Haeun, mas sua história era sempre sombria, marcada por escolhas moralmente questionáveis e um amor obsessivo. Sua rota de romance era muito complicada e eu nunca me dei ao trabalho de insistir nela.

E então, veio a verdade mais cruel: em todos os finais em que Haeun não escolhia Seungcheol, eu, a vilã, morria.

Não era uma morte rápida ou misericordiosa. Em cada rota, ele encontrava uma maneira de me eliminar. Ora era com a espada, ora com veneno, ora com manipulações que resultavam na minha execução pública. Ele fazia isso não apenas por amor obsessivo a Haeun, mas também para demonstrar seu valor a ela. A irmã que sempre competiu com ela e sentia inveja, se Eunji fosse eliminada, Haeun poderia gostar mais dele, mas isso só acabava o afastando mais da santa por seus atos monstruosos.

Na rota onde ele er o escolhido Eunji se tornava a própria inveja e devastava toda a nação colocando o príncipe herdeiro contra o casal. Nesse final Eunji também morria, mas esse é completamente minha responsabilidade de lidar com essa situação. Eu estava me preparando somente para esse final.

Meu coração disparou.

"Estou fazendo tudo errado?"

Até agora, minha estratégia era simples: não causar problemas. Tratava Haeun com bondade, evitava brigas desnecessárias e tentava me preparar para qualquer perigo. Mas nada disso importaria se Seungcheol decidisse que minha morte era necessária para alcançar seus objetivos. No fim minha vida estava nas mãos dele de qualquer forma.

E o pior? Eu ainda não o conhecia.

Pela manhã, minha mente estava tão confusa que quase não consegui me concentrar nos estudos. Durante o café da manhã, Haeun percebeu minha distração.

— Está tudo bem, Eunji? — ela perguntou, inclinando a cabeça com preocupação.

— Sim, só não dormi bem. — respondi rapidamente, tentando disfarçar.

Haeun não parecia convencida, mas não insistiu.

Chan, no entanto, não perdeu a oportunidade de provocar.

— Deve ser porque você lê esses livros chatos demais antes de dormir. Aposto que sonhou com guerras e estratégias de batalha!

— Essas estratégias que me fazem encontrar você toda vez no esconde-esconde, irmãozinho — retruquei, tentando soar despreocupada.

Chan riu, mas minha mente já estava longe novamente.

Naquele dia, decidi me isolar no jardim. Era meu lugar preferido para pensar, longe dos olhares curiosos dos criados e do silêncio pesado da biblioteca.

"Preciso encontrá-lo", pensei, enquanto arrancava algumas folhas secas de uma roseira. "Não posso esperar que ele apareça do nada e me mate. Preciso entender quem ele é, como ele pensa... e como posso evitar que ele me veja como uma ameaça."

Mas como eu faria isso? Ele era uma figura distante, cuja presença mal era mencionada na casa Lee. Sua família, apesar de importante, vivia em reclusão devido à maldição que carregavam. Ninguém falava deles abertamente, e eu sabia que perguntar sobre ele levantaria suspeitas.

Enquanto arrancava outra folha, um pensamento me atingiu: e se ele já estivesse me observando?

No jogo, Seungcheol era conhecido por sua inteligência e paciência. Ele movia suas peças no tabuleiro com precisão, esperando o momento certo para agir. Era possível que ele já estivesse ciente de mim, avaliando meus movimentos.

Essa ideia me fez sentir um frio na espinha.

"Não posso me dar ao luxo de ser descuidada", pensei, fechando os punhos.

Naquela noite, decidi organizar meus pensamentos. Peguei um caderno que usava para anotações de história e comecei a listar tudo o que sabia sobre Seungcheol e suas motivações.

Ele ama Haeun: Isso é inegável. Seu amor por ela é tão profundo que o leva a extremos.

Ele despreza fraqueza: Qualquer demonstração de vulnerabilidade ou incompetência é vista como algo digno de desprezo.

Ele é vingativo: Não perdoa quem o trai ou quem ameaça seus objetivos.

Ele é estrategista: Nunca age por impulso. Suas ações são sempre calculadas. 

Ele me odeia: Em todas as rotas, ele me vê como um obstáculo a ser removido para conquistHaeun..

Esse era o vilão que o jogo fazia os jogadores verem.

Fechei o caderno com um suspiro pesado. Não importava o quanto eu tentasse ser boa ou gentil, Seungcheol era imprevisível. Se eu não encontrasse uma maneira de lidar com ele, meu destino seria o mesmo dos finais do jogo.

Ainda assim, havia uma esperança. No jogo, a vilã sempre seguia o mesmo padrão de comportamento: era cruel, arrogante e constantemente tentava sabotar Haeun. Talvez, ao evitar essas ações, eu pudesse mudar sua percepção sobre mim. Ainda sim, algumas coisas no jogo não parecia condizer com a realidade atual, não sei se por falhas ou pela visão de jogadora onde eu jogava como Haeun. As pessoas nesse jogo muito mais complexas do que eu tinha noção, cada problema e NPC que eu nunca nem troquei duas palavras agora faziam parte da minha realidade.

"Preciso ser cautelosa", pensei, enquanto apagava a vela ao lado da cama. "Se o destino quer que nossas vidas se cruzem, então farei isso sob meus próprios termos."

E com isso, fechei os olhos, sabendo que o verdadeiro jogo estava prestes a começar.

Saint TearsOnde histórias criam vida. Descubra agora