Finalmente chegamos ao parque aquático, que por ser fim de semana estava bastante lotado. Havíamos entrado depois de Ferdinando pagar meu ingresso e estacionar o carro ao lado de um prédio vizinho, pois não tinha mais vagas sobrando no estacionamento do Orion. Caminhamos até uma barraca que vendia bebidas e compramos duas skol beats — acho que estávamos viciados em álcool. Tirei minha roupa e fiquei somente de sunga. Um pouco de vergonha, mas estava de sunga em público. Gargalhei no meu subconsciente.
— Você está parecendo um idiota com minha sunga hahaha! — Comentou Ferdinando.
— Ótimo, deixe-me mais constrangido. Você faz isso bem! — retruquei.
— É só uma brincadeira Arthur, você tem que deixar de ser tão crítico.
— Crítico?! O que isso tem a ver com o fato de você estar me constrangendo em meio a esse pessoal todo?
— O fato é que você é um nerd e não sabe discernir entre uma brincadeira e algo sério cara, e outra, não tem ninguém perto da gente. Nem bebeu e já tá de paranoia?!
— Ah não, já deu. Eu vou pra minha casa! — Exclamei enquanto vestia meu calção e caminhava em direção por onde pouco tempo havia entrado. Lourenço correu atrás de mim e segurou no meu braço com muita força tentando me impedir de concretizar o que disse. Continuou apertando até que olhei fazendo uma expressão de dor e raiva e ele acabou por diminuir o aperto.
— Olha, desculpe-me está bem?! Não faz caso por isso Arthur, você sabe que eu não quis ofender... Sabe que eu gosto de você — Quando eu escutei isso um calafrio percorreu minha espinha e um frio na barriga surgiu do nada e do nada se foi. Recompus-me — Fica aqui. A gente já até pagou. Já falei com teus pais. Vamos se divertir. Me perdoa por ser esse idiotão as vezes. Hã?! — Completou ele inclinando a cabeça exigindo uma resposta minha. Caminhei de volta e retirei minha bermuda e joguei-a no chão próximo à dele como um sinal de que estava tudo bem. Peguei a garrafa de bebida e a abri utilizando a minha camisa. Ferdinando sorriu em minha direção, e eu não contive a expressão de alegria por ele estar sendo tão bobo comigo, no sentido bom da palavra. Deitamo-nos nas cadeiras à beira da piscina e ele tocou num assunto que eu não queria falar no momento.
— Arthur, eu tenho uma coisa pra te falar. Acredito que com o que ocorreu ontem eu possa comentar isso contigo — Comentou ele friamente.
— O quê? — Interroguei-o preocupado.
— Éeee... como eu posso dizer...
—Só diga! — Interrompi.
— Ontem, quando chegamos ao casarão e eu fui comprar as nossas bebidas, eu acabei vendo seu irmão... S-se beijando... com outro cara — comentou pausadamente preocupado com a minha reação.
— É, eu vi. Mas ainda não tive tempo de conversar com ele sobre. Só me espantei no momento. Daí tudo aconteceu e me perdi dele.
—Ele não me viu. Tava muito ocupado — Comentou Lourenço dando uma risada sarcástica. Encarei-o com fogo nos olhos — Sabe, isso é muito estranho. Como você se sente sabendo que seu irmão também é gay? — Indagou ele, para minha surpresa.
— Como assim TAMBÉM? — Perguntei em voz alta —Eu não sou gay! —Exclamei.
— Tá, calma! — Retrucou Lourenço desconcertado com minha reação impulsiva, enquanto se dirigia para dentro daquela piscina imensa.
Eu fiquei eufórico com tudo aquilo. Com o que Ferdinando me chamou com tanta propriedade. Será? Pensei. Minha mente embaralhou-se e eu fui dar uma volta para matar a saudade do parque. Antes passei na barraca e comprei mais uma cerveja. Caminhei até metade do parque e notei uma coisa que fodeu ainda mais com meus pensamentos. Todos os casais ali eram héteros. É como se gays não existissem, pior, ser gay parecia não ser normal então era melhor não ser visto, talvez por isso não visse casais diferentes ali. Eu não queria ter que me trancar em casa ou até mesmo dentro de minha mente e me automutilar com toda essa nova situação que se apresentou. O que minha família ia pensar?! Meus amigos, colegas, professores, todo mundo?! Eu ia ser a chacota da turma. Na verdade, ia ser uma coisa bem piorada. Nerd e viado! Dei um gole na minha cerveja e caminhei mais um pouco. Olhei para o brinquedo que sempre quis ir, o tobogã de orion, e simplesmente não senti vontade de realizar um dos meus sonhos de criança. Nessa ida e vinda de um canto para outro do parque já havia se passado uma hora e eu já estava na quarta cerveja da tarde que se findava. O meu limite. Estava tonto. Precisava achar Ferdinando para irmos embora. Fazia muito tempo que tinha saído da beira da piscina sem avisar. Ele estava mergulhando e não tinha me visto. Andei de volta para a piscina.
— Você estava onde Arthur? Some sem me avisar. Achei que tivesse ido sem mim! — Comentou Lourenço num tom de voz preocupado.
— Você que tá com a chave do carro, lembra? Eu iria de pé? — Indaguei com voz forçada.
— Arthur, você está bêbado?
— É o que parece. Uma droga! Literalmente.
— Hahahahahahahahahaha! —Reagiu Ferdinando.
— Posso te fazer uma pergunta Lourenço?
— Sim!
— Você acha mesmo que eu sou viado? Porque... q-que merda! — Solucei ao comentar.
— Cara, você está embriagado! — Exclamou Ferdinando rindo da minha cara. Quis continuar ao assunto, talvez por efeito da bebida — Vamos para casa.
— Só me responde! Se liga no garoto recepcionista lá no casarão ontem? Eu acho que eu me interessei por ele. Eu vi... eu havia visto ele no ônibus horas antes de chegar na sua casa e sei lá, senti coisas que eu nunca senti nem por nenhuma menina.
— Que bosta Arthur! Olha o que tu tá dizendo! — afirmou Lourenço com ferocidade.
— Você deve estar com ciúmes — Brinquei. Porém Ferdinando se enfureceu.
— Você enlouqueceu de vez ou a bebida tá afetando seu cérebro? Deixa de ser tão esquisito às vezes Arthur, não sou eu que fico tocando a barriga ou o cabelo dos caras quando eles estão dormindo por aí!!!
Eu gelei. As lágrimas vieram nos meus olhos, mas eu segurei o choro. Lourenço nunca tinha sido tão escroto comigo assim antes. Ele jogar aquilo na minha cara, daquele jeito? Eu fiquei sem reação. Minhas mãos soaram numa velocidade incomum. Eu estava tão decepcionado, e a bebida me enfraqueceu ainda mais. Estava mais emotivo do que de costume. Fiquei nervoso com a discussão. Vesti minhas roupas o mais rápido que minha coordenação motora permitiu.
— Vai se foder! — Exclamei de maneira fria em direção a Ferdinando. Saí andando o mais rápido que pude do parque e só ouvi uns gritos baixos do meu amigo que acabara de me despedaçar por dentro pedindo que o esperasse. Tomei uma rua paralela a do orion e corri para que ele não me vesse. Caminhei um pouco mais até ficar com náuseas. Apoiei-me na parede de um prédio daquela rua estreita. A noite já caíra e eu vomitei, vomitei muito. Não me contive. Sentei-me no chão sujo e juntei minhas pernas aos peitos. Chorei. Chorei tanto que meus olhos ficaram inchados. Os ratos corriam entre si ao lado de uma caixa de lixo na minha frente. Eles eram minhas únicas companhias naquele momento de destroço. Fiquei assim até passar a vontade de vomitar mais. Levantei-me e caminhei até ter acesso a uma avenida que eu não conhecia. Eu simplesmente andei sem rumo. Peguei meu celular no bolso e coloquei meus fones de ouvido. A letra da música two men in love me veio à cabeça e a coloquei para tocar. Caminhei noite adentro. Aquela escuridão transpassava a minha alma. Estava mais confuso que nunca. Eu chorava. Senti repulsa por tudo que havia sentido de novo da noite anterior até o momento.
There's a strange love inside
It's getting louder, and louder, and louder, and louder, and louder.
Eu estava desesperado, eu corri o máximo que pude. Os carros passavam e ninguém me ajudava. Ninguém parava e perguntava se eu estava bem. Sentei-me no meio fio. Não sabia o que estava fazendo e não tinha noção porque aquilo me abalou tanto. Parecia não ter mais líquido no meu corpo. Não aceitava ser assim. As pessoas iam me odiar. Eu chorava, mas as lágrimas não caíam mais. Meu celular descarregou e com ele a música parou e as chamadas perdidas de Lourenço sumiram.
*
A avenida já estava diminuindo o seu tráfego e eu acabei por deduzir que já passava da meia noite. Nunca havia feito tal loucura de ficar até tarde num lugar que estava praticamente deserto. Colina era perigosa. Eu precisava ir embora. Acabei me arrependendo de mais uma atitude impulsiva. Culpei-me por tamanha infantilidade. Por que eu tenho tanto medo de bater de frente com algo? Por que eu sou tão covarde? Levantei-me do chão e entrei em um túnel na avenida. Fui andando a passos largos. Precisava procurar um posto, alguém que me ajudasse ou um local qualquer para recarregar meu celular e falar com Ferdinando. Meus pais nunca poderiam ficar sabendo da insanidade que eu tinha feito, muito menos a causa disso. Algumas luzes davam uma falsa sensação de segurança. Fazia frio e minha pele exposta ao vento enrugava em alguns momentos. Nenhum carro passara mais. Um deserto aterrorizante. Um silêncio apavorante. O efeito da bebida não tinha passado completamente e a briga com Ferdinando me deixou mais desnorteado ainda. Fiquei tonto e me apoiei na parede do túnel quando um farol clareou tudo atrás de mim rasgando a escuridão que dominava aquele ambiente. Uma moto vinha na minha direção, e o som da sua descarga quebrava o silêncio, que inacreditavelmente era mais cômodo que aquele barulho assombroso. O certo a se fazer era pedir ajuda, mas meu instinto só acionou o que eu sei fazer de melhor. Correr. A moto acelerou mais e aí notei que ela realmente estava atrás de mim. Meu coração disparou e meu fôlego parecia nunca ter existido. O nervosismo somado aos resquícios de álcool no meu sangue escureceu minha visão por três segundos que foram o suficiente para me derrubar no chão frígido. A moto se aproximou e me cegou com sua luz intensa. Fui abordado por um homem de capacete preto que preservava a sua identidade. Ele desceu da moto, mas não a desligou. Minhas mãos suavam. E minha pulsação acelerava a cada passo seu em meu rumo.
— M-moço, eu não tenho nada. S-só meu celular, mas ele d-descarregou, mas aqui está, pode levar! — Comentei desesperado tentando me livrar rapidamente daquela situação angustiante. Gaguejava. O homem que estava com uma calça jeans preta e uma jaqueta do mesmo material, também preta, e com uma camisa branca por baixo se aproximou e retirou o capacete, estendendo sua mão para mim.
— Aceita uma carona? — Indagou Félix.