- Gahyeon! Gahyeon! Gahyeon! - alguém sussurrava insistente no meu ouvido.
Abri os olhos com total relutância e vi minha irmã JiU com um sorriso contente, notei uma figura alta ao seu lado, e quando meus olhos se acostumaram com a escuridão, percebi ser JeonHong, meu pai.
- O que estão fazendo aqui a essa hora? - murmurei puxando o lençol até o queixo.
- Anda, precisamos arrumar tudo lá fora, hoje é o aniversário da mamãe, lembra disso pelo menos? Combinamos que acordariamos as 04h:00 para organizar as coisas no jardim. - explicava JiU calmamente em um sussurro, a contragosto levantei.
Promessa era promessa.- Precisava ser tão cedo? - olhei pela janela vendo o céu ainda escuro, acendi o abajur e peguei um casaco para me aquecer.
- Precisamos fazer antes que sua mãe acorde para trabalhar. - Lembrou papai já caminhando nas pontas dos pés em direção a porta do quarto.
- Hm... - murmurei acompanhando seus passos desajeitados.
Seguimos pelo corredor da forma mais silenciosa possível, mamãe ainda estava dormindo e precisava continuar assim se quiséssemos fazer a surpresa dar certo. A verdade é que vinhamos ignorando suas tentativas de lembrar o próprio aniversário, fingimos o mês quase todo que não estávamos nem aí para a comemoração, evidentemente ela se chateou e parou de mencionar o aniversário.
Descemos as escadas ainda no escuro, a única luz acesa era a do pequeno abajur perto do sofá, tendo ele como guia, seguimos direto para a porta da rua.
Uma lufada de ar gelado bateu em meu rosto quando a porta foi aberta, meu nariz passou a queimar minimamente, apertei o casaco no corpo e segui meu pai e minha irmã para fora de casa.
A rua estava totalmente silenciosa, nenhum carro passava e me arrisco dizer que aquilo tudo estava me deixando receosa. Várias coisas poderiam dar errado e acabar acordando a mamãe antes da hora, ou seja, antes das 06h:00.
- Precisamos ser silenciosos, rápidos e precisos. - anunciou meu pai, o cabeça de toda a preparação.
- Entendido. - murmurou JiU batendo continência, achei patético o gesto para alguém de dezenove anos.
Ela me olhou esperançosa esperando que eu repetisse o gesto.- Eu tenho dezessete anos, não vou fazer isso. - revirei os olhos já indo pegar os pisca-piscas que havíamos já deixado separado no fundo da varanda.
Um a um fomos seguindo como o planejado. Eu fiquei com a parte da iluminação, enrolei um pisca-pisca em uma árvore e mais um em outra. JeonHong e JiU ficaram com a montagem do local, ou seja, as mesas, o mini palco onde faríamos uma apresentação estúpida porém fofa, a montagem da barraca do cachorro quente, pipoca e algodão doce.
Trabalhamos duro durante todo o resto da madrugada, sempre que o sono batia eu pensava em minha mãe e o motivo de fazer oque eu fazia. Ela merecia.
Por algum motivo, por volta das 05h:15 me senti sendo observada. Olhei a rua que começava a acordar, alguns carros e motos passavam ocasionalmente, mas não havia nenhuma pessoa nas calçadas. Olhei para a janela do quarto quase esperando encontrar mamãe nos encarando, fiquei aliviada quando isso não aconteceu.
Bom, obviamente eu deveria ter notado que ela me observava naquele beco ao lado da padaria. Mas não fiz isso.
As 05h:45, os amigos, familiares e vizinhos que havíamos convidado passaram a chegar, eles sentavam silenciosamente na cadeira dispostas nas mesas de plástico espalhadas pelo jardim e também pela calçada.
Por sorte as crianças estavam sonolentas demais para se quer receber o pula-pula que meu pai montava no canto da cerca. Ou então o cheiro do cachorro quente que vinha da barraca. Ou quem sabe o leve ruído que a máquina de algodão doce fazia, deixando o cheiro maravilhoso de açúcar queimando no ar.
Estava tudo pronto, sorri contente comigo mesma, eu tinha trabalhado duro e os pisca-piscas brilhando nas árvores formando corações e estrelas eram a prova disso.
Estava tudo certo, era 05h:50, o despertador da mamãe tocaria em dez minutos, ela ia procurar pelo papai e não ia encontrar, aí nos nossos quartos e não aí nos encontrar, quando finalmente descesse as escadas e encontrasse a porta aberta aí achar a surpresa que procurava.
Era perfeito.
Mas não foi isso que aconteceu, óbvio.
- Gahyeon! - era JiU que chegava apressada. - Acabou os balões! Eu não terminei o coração da decoração! Ah, meu deus, eu tinha certeza que havia três pacotes na caixa, mas quando fui pegá-los só havia um.
- Ei, - segurei os ombros da minha irmã que estava a beira de lágrimas. - eu vou comprar! Quantos pacotes você precisa?
O rosto dela se iluminou de felicidade e esperança.
- Dois, é o suficiente, eu juro! - ela juntou as mãos em frente ao peito.
- Certo, certo. - dei batidas em seus ombros. - Vou comprar.
Ela agradeceu, caminhei até a mesa e peguei um pouco de dinheiro da carteira do meu pai, apenas o suficiente para comprar os pacotes.
Desviei de algumas crianças que corriam silenciosamente - provavelmente ordem dos pais - pela grana, eu não fazia ideia onde iria achar uma loja vendendo balões aquela hora.
Caminhei pela calçada indo nos estabelecimentos que eu conhecia, mas estava cedo demais, ninguém abriria nada essa hora. Continuei me afastando de casa sem rumo, demoraria para voltar mesmo se eu achasse uma loja aberta naquele momento.
Eu deveria ter estranhado aquela van vermelha e velha que vinha subindo a rua,era muita sorte e coincidência que aquele carro cheio de balões amarrados nos para-brisas e topo do automóvel tivessem me encontrado por acaso. Mas não pensei isso naquele momento.
Por isso, estiquei o braço pedindo para o automóvel parar.
Como eu disse, era uma van vermelha, de perto pude ver a logomarca de um circo, Lee Circus. A tinta descascava em diversos lugares e eu não fazia ideia de como aquilo ainda funcionava.
Mas o que mais me surpreendeu foi a garota que a dirigia. Ela tinha a pele quase morena, seus cabelos eram longos, cinza escuro — quase preto na verdade — e um boné vermelho cobria parte de sua cabeça, quando olhou para mim e sorriu, eu retribui, o sorriso era quadrado e bastante largo, talvez retangular. Ela não parou de sorrir mesmo quando eu parei.
Óbvio que não notei o quão perturbador aquele gesto pareceu.
– Desculpe, é que eu vi os balões e pensei que se eles não estariam a venda. — falei de forma desajeitada enquanto a garota desligava a van e saia da mesma.
Ela deu a volta sem parar de sorrir por um momento sequer.
– Você gosta de balões? — perguntou tocando em um que flutuava calmamente amarrado no para-brisa. Seus dedos eram longos e cobriam boa parte do balão vermelho.
– Eu não gosto de balões, — admiti. — só que preciso para a decoração da festa da minha mãe.
O sorriso dela murchou rapidamente, agora ela carregava uma expressão de incredulidade.
– Como não gosta de balões? Eles são lindos e necessários. — ela apertou o balão que estourou fazendo um estrondo que me assustou.
– Mas então... — acho que eu realmente já não confiava muito nela naquele momento, talvez fosse o jeito que ela me olhava, era perturbador ter aqueles olhos negros grudados em mim. — estão a venda?
– Ora, sim, sim, sim. — ela estava enérgica e voltou a sorrir, observei ela abrir a parte de trás da van, uma variedade de pacotes de balões estavam lá dentro, alguns estavam cheios e flutuavam no topo do automóvel.
– Quanto custa um pacote? — perguntei preocupada ao notar que os balões de dentro eram muito bonitos. Diversos desenhos dourados enfeitavam os balões vermelhos, formas verde esmeralda decoração os balões vermelhos, formas verde esmeralda decoração os azuis e por aí vai.
– De qual tipo você quer? — ela riu baixinho subindo na van e ficando em meio a vários balões.
– Do tipo que assopra e fica bonito de enfeite. — não resisti e acabei falando.
– Eu tenho esse, — a garota ignorou meu comentário sarcástico e me mostrou um balão azul cintilante. — por que não chega mais perto? Consegue ver como esse possui traços maravilhosos? Consegue? Aproxime-se! Veja, huh?
Naturalmente me aproximei quando a garota desceu da van.
Ela não mentiu, os balões eram de fato lindos, quando encostei na van, me perdi nas cores, estava hipnotizada por toda a variedade que fugia dos padrões.
E então senti meu corpo ser segurado com força, ele pressionou algo com cheiro doce e enjoativo no meu nariz, não consigui gritar ou fazer qualquer coisa.
A última coisa que vi antes de apagar foi um balão negro se soltar da janela da van e ser levado pelo vento.